18 de ago de 2009

GRAFFITI




Ás vezes eu fico preocupado com determinados rumos que a minha atividade toma e uma delas tem me incomodado muito nos últimos meses: me incomoda a maneira como a sociedade encara os grafiteiros. E essa avaliação social da minha arte leva sempre àquela pergunta fatídica:

GRAFFITI OU PICHAÇÃO?
Na visão geral, é considerado graffiti um tipo de pintura que tem se popularizado muito nas últimas três décadas aqui no Brasil, as suas variantes são infinitas, vai desde assinaturas de gangs feitas com técnicas primárias (sprays, rolinhos, pincel), até pinturas altamente elaboradas com aerografia (pistolas de gravidade e compressores) em fachadas de lojas, colunas de viadutos, túneis, museus, etc...

ONDE TERMINA UM E COMEÇA O OUTRO?
Isso depende do ponto de vista... Por definição, a palavra graffiti vem do latim, e é plural de outra: graffito. Que no seu mais simples significado, quer dizer pichação. Sabemos que na Roma antiga, onde se usavam muito essas definições, não havia rádios, TVs, internet, essas coisas que temos hoje em dia e era comum as pessoas se comunicarem por recados deixados nas paredes, inclusive havia paredes públicas próprias para este fim.

Hoje em dia, por motivos diversos, os jovens continuam se comunicando assim. A vida nas grandes cidades gera certo tipo de necessidade de auto-afirmação, que o graffiti vem preenchendo. É muito difícil para adolescentes e jovens se firmarem e serem respeitados no seu meio, só se utilizando dos valores que são oferecidos pela sociedade em que ele vive...



A Educação hoje em dia passa por problemas nunca antes vistos. Os pais, quando existem, geralmente trabalham e tem pouco tempo para os filhos, sendo a educação familiar e escolar delegada a terceiros. Os jovens, por lei, não podem mais trabalhar até os dezesseis anos, aí você raciocina o seguinte: ele passa doze ou treze anos na escola até que conclua o ensino médio, ele sai pro mercado de trabalho sem profissão definida e no caso dos meninos, em fase de alistamento militar... O Senhor aí que me lê, vai dar emprego prá esse projeto de incompetente que acabou de sair da escola? Mas...

Ele também precisa sobreviver, ele também quer um celular e um tênis decente, ele também quer o reconhecimento por ser útil ao meio em que vive, ele também quer ser respeitado pelos amigos e pelas garotas... Sabe como ele consegue isso tudo? Pichando seu muro.
-Você viu só onde o Vindix pichou? – Esse é o comentário na segunda-feira na escola assim que todos vêem a caixa-d’água da Sabesp em frente. Como ele subiu lá? Como ele conseguiu por sua assinatura na coroa de concreto do reservatório a mais de 30 metros de altura? Isso não faz a menor diferença, caro leitor. O importante é que agora ele incomoda, ele existe. Picho, logo existo.

A lei e a sociedade chamam isso de vandalismo, dano ao patrimônio público ou privado... Mas para o meu amigo Vindix só significa isso: existo. Ele está pouco se lixando pro patrimônio, ele não tem nenhum. Ele não sabe o que é destruição de propriedade, até por não ter ainda construído nenhuma. Você gasta a maior grana com pintor, tintas, massas, texturas e o garoto em questão tá nem aí, ele acha que aquela textura linda que o senhor colocou na parede, vai deixar o graffiti dele mais bonito. No caso a vítima é a sua parede, mas poderia ser uma camiseta, uma placa, um muro, uma tela... Geralmente, o grafiteiro nunca visa a parede, ela é só um suporte. Nos meus vinte e nove anos de graffiti, eu só vi um caso de pichador (eu mesmo), que atacou uma parede visando atingir o dono dela.



Sim, graffiti. Pros outros pode ser pichação, mas prá ele é arte. Prá mim também. Lembra daquela máxima da pichação? “Pichar é arte, correr faz parte”. É isso mesmo. Não posso cobrar de um jovem de quinze ou dezesseis anos o mesmo refinamento técnico que tem um profissional de pintura artística. Cada um se expressa do jeito que sabe ou pode.
Ah! E tem mais: a Sociedade tem a péssima mania de chamar de Graffiti o que é bonitinho e aceitável esteticamente falando. E chama de pichação o que as pessoas acham que é feio...Infelizmente queridos, o feio não existe! Sempre vai existir alguém que ache lindo a coisa mais feia do mundo. Eu mesmo, sempre consigo arrumar garotas uma atrás da outra...
O fato de uma arte ser proibida não torna ela menos arte. Muitos tipos de músicas ocidentais (Samba, Jazz, Rock...) são proibidos em países fundamentalistas muçulmanos, o balé já foi proibido em vários países europeus, a capoeira, a tatuagem...a lista é gigante. Por que a essência da boa arte é essa mesma: incomodar, denunciar, protestar...e no seu ápice, fazer as pessoas enxergar e entender melhor as coisas..

É ISSO: NÃO HÁ DIFERENÇA.

O Graffiti é a mais recente e a maior forma de expressão artística já surgida no mundo.Prá você ter uma idéia da importância disso, a última ocorrência deste tipo foi o Rock’n’Roll a mais de cinqüenta anos atrás...
A arte na sua essência é expressão, e quando eu analiso um picho desses, eu analiso o que o seu autor quis dizer, o que ele tentou passar pro seus leitores... E uma das coisas que eu mais vejo são jovens delimitando territórios, jovens que querem ser notados no seu meio, jovens apaixonados mandando recados para os seus amores, jovens exercitando seu olhar artístico, jovens que existem e essa sociedade-draga, engolidora das personalidades, transforma-os em pequenas peças de um linha de produção de neuróticos sem perspectiva de uma existência um pouco mais vívida.

O graffiti na maioria das grandes cidades e de determinados regimes autoritários, sempre funcionou também como forma de protesto, como uma ferramenta de denúncia de um estado de coisas injustas ou erradas. No Brasil dos anos setenta foi ferramenta importante de divulgação das idéias democráticas e de liberdade de expressão. Foi para os punks do mundo inteiro uma forma de expor os males do sistema. Para os muralistas, mexicanos uma forma de mostrar seus trabalhos e para os grafiteiros paulistas uma forma de engordar o orçamento... kkk, Claro que sim, uma graninha de vez em quando não faz mal prá ninguém! E principalmente isto, tem levado vários grafiteiros à profissionalização.
Já que o graffiti é visto como forma bela de arte pela maioria e como forma de contestação pelos grafiteiros, por que não unir as duas coisas?





GRAFITE COMERCIAL?

Durante muito tempo, nos meus cursos de Graffiti, eu utilizei essa expressão, mas cheguei à conclusão que graffiti comercial não existe: o graffiti é espontâneo... Eu me refiro a estas pinturas muito bonitas feitas em lojas e outros tipos de prédios comerciais da cidade. O empresário contrata um destes artistas de rua para que pintem na fachada e as portas de aço da sua loja as marcas e os produtos que vendem.

Mas não é. Isso se chama pintura comercial ou publicitária. No meu caso, quando eu vendo uma pintura comercial, eu vendo basicamente três coisas: a mão-de-obra, o material e a minha tag (assinatura de grafiteiro), geralmente essas pinturas são sempre a mesma bosta, e elas não são ‘pichadas’ por outros. Dizem as más línguas, que existem pactos entre ‘grafiteiros e pichadores’: isso é uma gigantesca besteira. Eles simplesmente não ‘picham’o meu trabalho, por que eu sou um deles, eu sou um ‘pichador’... Como é que eles vão grafitar um lugar que já está grafitado? E por mais profissional que seja a minha pintura publicitária, eu sempre uso elementos do graffiti de rua para isso mesmo, para que os outros grafiteiros fiquem identifiquem que quem fez aquela pintura foi um deles.

E tem mais: o Graffiti em si, não é uma técnica, o Graffiti é um conceito. Como é o impressionismo, o cubismo, o expressionismo...É um erro achar que algo é graffiti ou pichação baseado no material ou técnica que foi usada. Até por que, você pode grafitar ou pichar com o que quiser: lápis, spray, revólver, giz de cera ou qualquer outra técnica. Já as pinturas que se vê por aí no comércio é pintura. E comercial, porque foi paga. O graffiti é feito por que se quer fazer, por gosto, por liberdade, por expressão, protesto ou qualquer outro recado que se queira passar.

Por isso é interessante juntar essas coisas, o graffiti é meio de contestação contra a exclusão social, mas na outra ponta pode ser usado para incluir socialmente e profissionalizar os jovens que de outra forma, não teriam outras oportunidades de serem mais no meio em que vivem.


                    Esta foto é representação do que digo: O pichador se refere a o que faz como graffiti..

AS ‘OTORIDADES’
Essa é parte mais hilária da discussão, o prefeito de São Paulo, Sr. Gilberto Kassab, alçado a esse posto de carona por ser vice-prefeito de José Serra, prometeu em campanha política, aí sim para o seu atual e legítimo mandato, que iria acabar com a ‘pichação’ em São Paulo... Hilário ele. Reelegeu-se por que as pessoas adoram ser enganadas: Onde já se viu acabar com o graffiti!
Ninguém caro Prefeito, em ponto nenhum da história da humanidade conseguiu ou vai conseguir isso. Nem o Vesúvio conseguiu... Tá cheio de Graffiti nas ruínas de Pompéia... Nem a Era do Gelo conseguiu...Enquanto houver um jovem insatisfeito com algo ou com um pouco de veia artística, o graffiti vai existir.
Isso vindo do Sr. Kassab fica muito estranho, pois ele só chegou aonde chegou, por que José Serra que era prefeito da cidade, largou o posto depois de dois anos prá se candidatar ao governo do Estado. E se elegeu! Depois de ter registrado em cartório que jamais deixaria a prefeitura no meio do mandato por causa de outra eleição...
É por estas e outras que não se tem como cobrar uma postura mais adequada dos moleques, os adultos e dirigentes não dão exemplo! O garoto é proibido de grafitar (Lei nº 9.605 de 1998, promulgada por Fernando Henrique Cardoso), mas o próprio emporcalhou os muros do país todo com cartazes e letreiros horríveis e mal feitos, em suas campanhas prá presidência... Confraria de hipócritas!
E essa lei ridícula não faz distinção entre graffiti e pichação, pro sistema é tudo a mesma coisa... O que é uma situação muito esquisita... Pois o Estado proibe o graffiti mas, por outro lado, eu mesmo sou pago pela Prefeitura da minha cidade e pelo meu Estado, pra dar aulas de graffiti em Escolas, ONG's e Casas de Cultura....
È como diria o colunista da Folha de São Paulo José Simão: ‘Este é o país da piada pronta! há há há !!!!!’



UM NÓ.
Mas uma coisa muito séria precisa ser dita aqui: Nós precisamos de alguma maneira, parar de arriscar as vidas dos nossos jovens. A maioria vive se arriscando a cair de um prédio, ou tomar um tiro, seja do dono do imóvel ou seus seguranças, ou ainda a polícia. Sim. A sua, a minha.
Hoje em dia, são pouquíssimos os policiais que levam pichadores flagrados, para a delegacia. Não adianta, segundo os próprios policias, pois os infratores como diz a lei, devem ser encaminhados para reeducação e para o seio da sua família. O que temos aqui são policiais julgando, já que julgar é da alçada judiciária, não cabe á polícia dizer o que deve ser feito. Ela deve cumprir a lei.
Mas não é o que acontece: seguranças de imóveis e os seus donos, sob a desculpa de uma pretensa defesa da propriedade apreendem, torturam, espancam, atiram e, ás vezes matam grafiteiros por aí.
Um desses me disse uma vez:
-Se eu pegar pichando minha parede eu meto bala!!! E eu respondi:
-Pois é...Tem alguma coisa muito errada quando a vida de um adolescente vale menos que uma lata de tinta...
Os policiais geralmente não chegam a estes extremos, mas já vi e ouvi vários casos de adolescentes que são submetidos a sessões de tortura, onde são obrigados pelos homens da lei a se pintarem mutuamente e depois são largados a própria sorte.
Essas pessoas precisam parar de tratar grafiteiros com essa selvageria, a título de exemplo, na França foi criado nos anos sessenta a OLGA, uma espécie de repartição governamental que cuida da limpeza das edificações, retirando ou apagando os graffiti. Como sabemos a França é bem diferente do Brasil, é mais rica, mais educada e mais ordeira. Mas o graffiti continua a todo vapor lá, a OLGA também. Existe até hoje e não consegue limpar o país.
Lá na França um graffiti ficou muito conhecido nos anos setenta e oitenta que dizia assim:
OLÁ OLGA! AÍ ESTÁ MAIS UM GRAFFITI PARA APAGAR!
Caro Prefeito, seja bem-vindo ao inferno...

TÁ CEDO!!!