25 de mai de 2009

RUA ALDO



Previlegiado esse garoto. Tem cinco anos, já lê e escreve como gente grande. Gosta de arte, música e desenha bem demais pra sua idade. Mora numa rua pacata da aprazível Vila Industrial dos anos 60, 70, por aí...
A rua Aldo é margeada em toda a sua extensão por um riacho de corredeira rápida, que é afluente do Córrego do Oratório. Ou rio Guaçú, como era chamado pelos índios que originalmente habitavam essa região, conhecida durante muito tempo como a Fazenda da Juta, ao sudeste da cidade de São Paulo.
O previlégio maior é ter o regato passando bem no fundo seu quintal.
As brincadeiras na água não têm hora. E caminha com amigos e primos toda a extensão do riacho, até a nascente (ou mina, como os meninos chamavam-na) nas ravinas na Estrada do Oratório. Ou até o seu deságüe no Guaçú, bem maior e de correnteza veloz. E lá se vão eles pela água clara, coletando e comendo pequenos morangos silvestres que crescem ás margens...Diversão pura.
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No entre-rios havia uma chácara de um português (Seu Manuel, óbvio), que plantava de tudo e fornecia verduras e legumes aos moradores da Vila. O garoto freqüenta a chácara, para comprar coisas para a mãe. O Seu Manuel é caprichoso: faz buquês de verduras e legumes, amarrados com tiras finas do sisal, que ponteia, literalmente, a plantação. Entretanto, a maioria das visitas à chácara, não são feitas pela porteira da frente...
Grupos de garotos ávidos por aventura se embrenham nas matas ás margens dos córregos e entram pelos fundos da propriedade. E saem de bolsos, e barrigas cheias. De quê? Ora caro leitor, de goiabas, bananas, laranjas, uvas, caquis e uma infinidade de delícias saqueadas do português...Que sempre saia bufando feito um zebu, de espingarda na mão...Diversão, pura e simples.
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Privilégio era ser o único da rua, aos doze anos, a levar um tiro de chumbinho na perna e ser respeitado pela garotada da rua.
Quando ouviu os gritos do portuga, correu, sentiu o impacto no joelho e rolou barranco abaixo até o Guaçú. Sentou na margem ouvindo a gritaria da molecada que se aproximava. Lavou o ferimento, juntou-se aos amigos, que não disseram uma palavra. Parece que havia um pacto não declarado entre eles, que o ajudaram a andar e o levaram embora.
Em casa disse a mãe que se esfolou jogando bola no campinho improvisado num terreno baldio da rua Alzira.
E o português nunca mais teve sossego.



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Como na maioria destes riachos da Bacia do Alto Tietê, várias lagoas se formam nas várzeas e ao longo de seu curso, as famílias pobres fazem balneário e piquenique. Formadas na sua grande maioria de imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e japoneses, essas famílias se espalham pelos campos e morros que ladeiam o córrego. As crianças se divertem com seus jogos e correrias, os pais vão ver no campo no topo do morro, mais uma sensacional vitória do IV Centenário da Vila Industrial. O troféu, é claro, ia pras prateleiras do Bar do Bié... Lembra né? Onde todas as dúvidas do jogo se acabavam em caipirinha e partidas de sinuca. Divertido mesmo.
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Num dia qualquer de outono o garoto acorda vai ao fundo do quintal, ver os 'seus' guarús, pequenos peixinhos coloridos que ele muito gosta de por em garrafas e bacias, para ver nascer filhotes, pra depois soltar tudo de novo dentro do riacho... Ver girino criando pernas. Essas coisas que guris acham de gostar.
Gosta também de como a paulista neblina daqueles tempos, flutua na superfície da água. No meio da névoa vê alguns pontos coloridos... Acha divertido, pois os pontos viram manchas e as manchas aumentam e têm um colorido furta-cor.
Ele chama uma prima mais velha pra ver. Ela fica horrorizada: diz que é óleo. Saem à rua andam um trecho e entram na rua A, em direção à mina. E descobrem acima dos barrancos da nascente que construíram uma garagem de ônibus na Estrada do Oratório. Acabou a diversão.
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A E.P.O. (Empresa Paulista de Ônibus) construiu a garagem e passou a despejar todo o resíduo dos motores e da lavagem dos ônibus, na penha da nascente...'Coisa de homens que não se lembram mais do sabor dos morangos silvestres', dizia sua prima com um ar de apocalipse pessoal.
E o garoto, que num futuro não remoto resistiria, sem uma lágrima, ao impacto do chumbo quente no joelho, chorou como criança que era... Sabia que aquela Vila Industrial (que de industrial só tinha o óleo no 'seu' rio), que era reduto de operários pacatos, se tornaria igual a qualquer outro bairro pobre da periferia...
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Trinta anos depois, superpopulosa, violenta e suja, a Vila não tem mais chácaras, os tiros são de 380, as margens dos dois rios viraram favelas e a água, vão ter que trocar de nome... Trinta anos depois, as longas tardes de outono da rua Aldo fazem falta ao garoto e nas noites de inverno seu joelho dói. É uma dor fina e tênue, não incomoda, nem deixou seqüelas, mas até agora ele não sabe onde foi parar a porra do chumbinho...

DORALICE


Era um dia normal de aula, quero dizer, quase. As coisas importantes que nos acontecem, geralmente não acontecem em dias normais. Um dia normal é só mais um... Este não.
Na bagunça geral de uma sala de quinta série mais um elemento veio se somar: a professora de Ciências faltou. Tínhamos três aulas antes do recreio lá no Jocelyn e duas de Ciências, ou seja, mais de hora e meia de pura anarquia juvenil sem professora na sala.
É claro que de vez em quando passava a inspetora: Dona Maria, o terror da garotada, com ela não tinha refresco, era diretoria na certa e, dependendo da gravidade da situação, suspensão e se o capiau fosse levado da breca mesmo, expulsão. Foi o meu caso em 78.
Imagine só, hoje em dia as crianças não tem nenhum incentivo para estudar. Podem aprontar o que quiserem que não acontece nada, até passam de ano... Chegam até o ginásio sem saber nem ler. Não tem conseqüências, só passam de ano. Aprendam ou não, se comportem ou não.
Mas não era disso que eu ia falar, ia falar da Doralice. Ela era um pouco maior e acho que um ano mais velha. Andava junto com o Alfredo e a Rosângela, o Casal Vinte da sala. Namorados mesmo, de beijos na boca e amassos pelos cantos da escola e tudo mais que tinham direito. Isso tudo no meio de uma garotada de onze ou doze anos. A Doralice era a ‘vela’ particular deles. Era assim que o resto dos meninos e meninas a chamavam, com essa crueldade típica de púberes descobrindo-se e descobrindo o mundo.
A Doralice e a Rosângela eram amigas e depois que a segunda começou a namorar o Alfredo passaram a andar os três juntos. Naturalmente, mas a garotada não perdoava.
Eu tava nesse meio, não valia um centavo desde a quarta série, quando comecei me descobrir e achar que eu já era adulto o suficiente. Tinha sido aluno exemplar até então, era admirado por todos, meu boletim parecia o extrato bancário do Silvio Santos, mas... Eu descobri que tirava boas notas sem precisar ser CDF e eu desandei na baderna, nas garotas. Ah! As garotas.
Andar com esse trio me deixava admirado da suposta maturidade deles. A Doralice, apesar de não ter mais que treze, era toda mocinha. Loira, cabelos lisos compridos e se vestia sempre com um ‘quê’ de adulta: calças jeans, blusinhas decotadas e sendo alta e esguia, quando colocava o avental da escola, ficava elegantíssima. Pelo menos era mais alta que eu. Que achava ela linda, mas ela nunca me dava bola... Eu puxava papo, brincava, provocava, fazia desenhos românticos, mas ela, nem aí prá mim... Não que eu estivesse apaixonado ou coisa do tipo, já tinha um rolo com outra mas... nunca se sabe, né ?
Alguns dias antes eu tinha reclamado disso com o Alfredo, e ele me disse que eu tinha de ir prá cima dela, mas provavelmente ela não tava me percebendo, por que eu tava nesse rolo com a Isabel. Ficava com ela de papo, de namorico e as minas queriam exclusividade. O Alfredo era o único mais velho da sala, tinha já uns quinze anos e ficava arrumando para os mais novos.


-- Então, ela não vai te dar bola enquanto você ficar com a Isabel — Disse ele.
-- Mas eu não tô namorando a Isabel... – Respondí.
-- Não é o que parece...—Retrucou.
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Nesse dia de aula vaga, eu tava na minha carteira, tentando fazer mais um desenho, quando notei um burburinho e o Alfredo vindo pro meu lado. Eles estavam armando uma brincadeira muito maliciosa, daquelas: Beijo, abraço e aperto de mão. Mais beijo do que abraços ou aperto de mão...
--Aí pivete, chega aí que vou arrumar prá sua cabeça...— Disse ele.
--O quê você tá aprontando ? — Perguntei.
--Vou jogar a Doralice na sua mão... – Respondeu.
--Cê tá doido...
--Seguinte meu, vamo lá prá brincar com a gente... eu vou ficar tapando os olhos e perguntando quem você escolhe, aí quando chegar na Dora, dou um toque, vou apertar sua cara com a mão e você escolhe ela...
--Nada! Você vai me enganar, vai me por prá beijar marmanjo – Desconfiei né ?
--Seguinte, é sua chance, você já me viu sacanear alguém, pivete ? – Desafiou ele...
--Hoje, você quer saber?
--Cê tá me gozando né ? Só pode.—Ele parece que não gostou da piada...

Fui obrigado a reconhecer que ele não vivia mesmo sacaneando os outros, mas sabe moleque como é que é ? A gente tem confiar desconfiando, lá no meio da brincadeira, depois de escolhida a pessoa e o tipo de prêmio, você teria que cumprir. Imagina só se ele me põe prá beijar o Wilson? Aquele magrelo alto, dentuço e desengonçado... A pessoa fica com os olhos fechados pela mão de quem comanda a brincadeira, combinam trambiques desse tipo prá beijar na boca quem se quer e o cara te sacaneia, dá um toque no seu rosto que é a pessoa que você quer, e não é... É claro que você não é obrigado a beijar quem não quer, mas se não cumprir o combinado, vai ter que pagar mico prá turma toda e ficar desmoralizado na escola...
Fui! Quando juntei com o pessoal ele começou com um pulou prá outra, outro, outra, até que me escolheram. Essa, acho que ele fez de propósito também, era a Estela, menina tímida, muito recatada e linda também, se ela quisesse me beijar, eu até deixava as outras prá lá...
-- E aí mina ? Beijo, abraço ou aperto de mão? – Perguntou e todo mundo reparou que ele deu um ligeiro aperto no rosto dela..
-- Aí não vale! Disse o Roberto indignado, que além de vizinho da Estela era paga-pau dela. E muito meu amigo, e eu não queria sacaneá-lo. Ela não poderia escolher beijo em hipótese nenhuma.
-- Cê tá sacaneando Alfredo! – Disse outro que eu não me recordo quem era, mas a bagunça foi estabelecida na sala...
-- Aí ô! Silêncio! Silêncio! A Dona Maria aparece aí e brincadeira vai pro saco!
Estabelecida a ordem voltamos a brincadeira: Eu já tava com o coração na garganta, mas a Estela comedida como, era me salvou a pele...
-- Abraço!—Disse ela depois de alguns segundos de agonia e a meninada gritando feito besta.
-- Uhu! – Gritou o Alfredo. Tudo isso sem tirar a mão do rosto dela...
Quando ela virou prá me abraçar, percebi uma certa expressão de alívio no rosto dela... O que será que isso queria dizer ? Sei lá. E expressão igual no meu com certeza! Mas a minha agonia ainda não havia acabado: ainda tinha que encarar o combinado com o Alfredo e quando encostei, ele disse bem baixinho no meu ouvido:
-- É agora mano!—Eu travei. A minha espinha virou um trem só.
Ele pôs a mão no meu rosto e começou a perguntar: é essa ? Não. É essa ? Não. Putz! Que enrascada. E eu virando um iceberg. E apertou levemente o meu rosto -- É essa ?—Foi a pergunta que ficou ecoando na minha cabeça por décadas... ‘É essa ?’.
-- É! – Respondí, tentando bancar o homenzinho da situação... E a pergunta fatídica:
-- Beijo, abraço ou aperto de mão ? –
Fudeu! Aí ele apertou com mais veemência a minha cara, mas sem dar na vista, prá não virar baderna de novo, pois haviam outros pretendentes na fila...
-- Beijo!
-- Frio, quente ou fervendo ?
E eu na dúvida se ele iria cumprir o combinado, com o coração na boca...!!!
-- Fervendo! – Prá acabar de lascar tudo mesmo.
-- Corre pro abraço mano! E me empurrou na direção dela. Ufa!
Era ela! Era ela mesmo!

Ele fez seu papel e me ensinou, na prática, o valor da palavra do homem, não interessa a idade dele.
Bom, a Doralice veio, sorridente, linda e de braços abertos. Uma dama. Eu sumi nela, foi algo jamais experimentado. Indescritível, inexplicável. Não sei quanto tempo ficamos ali, sob a zoeira generalizada, torcida gritando, lábios, línguas e tudo mais... Me pareceu uma eternidade. A eternidade deve ser ótima. Entendi também, por que precisamos dela. Nos lábios de outra criança...
Não sei se foi o dela e nem faz diferença, mas foi meu primeiro beijo...
O Alfredo não sei que fim levou, mudou de escola... Mas valeu, Mano!
A Eternidade lhes sirvam de prêmio... Deus sabe disso, é profissão dele.

SKUNK - parte 1


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Imagina só: dois pirralhos, doze anos cada, juntos não davam um adulto. E tinha mais vento nas cabeças dos dois do que na Patagônia. Duas e pouco da madruga, passeando ali pelos confins de São Paulo (Vila Industrial, na divisa com Santo André), vindos de um baile lá na Favela da Ponte Preta no Parque Santa Madalena. Quem conhece a região sabe a bocada que é... Mas, lá se vão trinta anos.
Naquela época não era tão perigoso assim, contanto que os dois ditos vinham calmamente madrugada adentro e seus pais não tinham a menor preocupação de saber onde eles estavam. Era um tempo em que se mantinha a porta de casa aberta e todos se freqüentavam, havia segurança, mesmo nas quebradas. Você andava á noite na rua sem se preocupar com nada, era só dizer prá mãe que estava na casa do fulano. É trauma de velho isso, mas eu não vou perder o lugar comum: ‘Bons tempos aqueles...’
E você verá isso nestas linhas, pois os dois garotos acabam de avistar um amigo descendo a ladeira em frente à escola em que estudam, a Escola Estadual Jocelyn Pontes Gestal fica num topo e a rua cruza a colina entre a V. Industrial e o Pq. Santa Madalena.
Ele vem descendo cambaleante, ziguezagueando mesmo! Está todo vestido com roupas militares camufladas e uma mochila verde gigantesca nas costas.
Deve ter por volta de vinte e cinco anos e chama-se Luís. Tinha um apelido... Sei lá. Não lembro, coisa de velho. O tipo dele é assim, descendente ou Nordestino, médio, meio índio, meio negro, cabelos encaracolados pretos aparecendo debaixo da boina verde-oliva. Um tipo simpático. Conheciam ele dalí mesmo da porta da escola, que ele freqüentava, prá paquerar as meninas e ‘otras cositas más...’

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Os meninos o avistam e o chamam:
— E aí Luisinho? Pergunta Roberto. Luís levanta a cabeça e fixa o olhar tentando reconhecer quem é. E bingo! Alguém se preocupa com segurança dos cidadãos dessa cidade.
— Ô, e aí meninos? Isso é hora de vocês estarem na rua? — Por essas e outras você vê que mesmo quem era torto, cuidava de quem não era...
— A gente tá vindo dum baile lá na Ponte Preta... — Respondi eu.
— Ah! Então tá em casa, baile lá do Zumba, né?—Relembra Luís.
— Isso.— Confirma meu amigo Roberto Qüem-Qüem.
— Então tá. Ele me falou, mas eu viajei, por isso não fui lá no Zumba.
—Viajou prá onde? Férias? — Perguntei.
— Não garoto, negócios. No meu ramo não tem férias... Eu tô vindo da Bolívia
Nossa! A Bolívia na minha cabeça era um lugar qualquer numa floresta distante... Mas o espírito aventureiro e ‘empreendedor’ do Luís me fascinava.
— Bolívia? Como se chega lá? — Perguntou Roberto.
— Vixi! Mó treta, tem que pegar um trem aqui em São Paulo, depois outro em Bauru até o Mato Grosso e depois o Trem da Morte que vai prá Bolívia...
— Brabo esse seu trampo, heim? — Comento.
— Ah, você sabe, né véio? Nesse meu ‘trampo’ é melhor buscar a mercadoria direto no produtor, sai mais barato do que pegar de atravessador — Respondeu.
— Sim, o seu ‘trampo’... — Roberto inteligente como só ele, sacou logo. Aquelas trouxinhas que o Luís sempre passava pros outros na frente da escola...
—Isso garoto Qüem-Qüem! Você sempre ligado. — Se admirou Luís.
— Pelo que eu tô vendo, quem tá ‘ligado’ é você né Luisinho? — É o Qüem-Qüem bancando o espertinho...
—Meu irmão, eu tô ‘muito louco’— Confessa sem nenhum pudor. — Mas é o seguinte: eu não quero saber de vocês metidos nisso, vocês são dois garotos inteligentes e não tem nada a ver com esse meu mundo aqui ó.. —
— Qualé Luís? A gente não vai poder nem experimentar um back-side? — Desafiei. — Quero dizer: quando a gente for maior?
— Não! E tem mais, se eu pegar alguém passando do meu baseado prá vocês, tá fudido. — Contestou. — Vocês tem que estudar prá conseguir mais do que eu tô conseguindo com essa droga toda. E eu não vou ficar muito tempo nessa... Só vou juntar uma grana prá montar um negócio próprio e dar meu trampo. Por isso não inventa de vir na minha onda, eu não vou durar muito tempo nisso.
— Ouvindo você falar assim, dá até medo...¬
Ora, ora, o quê temos aqui caros amigos? Penso hoje com os meus botões. Um traficante com princípios idealistas de um futuro melhor! Pois é, naquela época até o traficante tinha princípios...
— Medo vocês deveriam ter de ficar aqui conversando comigo. Entre pó e mato, deve ter uns 20 quilos na minha mochila...Se os ‘homi’ pega nóis aqui...ó... — E bate com a palma da mão em cima da outra em forma de copo.
— Só — Monossilábico esse Roberto ás vezes.
— E você conseguiu entrar pro Exército com essa trambicagem toda, Luís? — Quis saber eu.
— Santa Ingenuidade Batman! — Brinca Luís
— Porque com essa roupa aí, a gente vai temer o quê? — Questiona Roberto.
— E quem disse que eu sou do Exército? Deixa explicar uma coisa, vocês já devem ter percebido que nós vivemos tempos brabos, estamos no meio de uma ditadura militar sem prazo prá acabar, e como eu ando nuns lugares muito suspeitos, o jeito mais seguro é andar disfarçado de milico... Quem vai mexer com militar?
— Puta merda! Bem sacado. — fiquei admirado com a inteligência do marginal. E decidi aquele dia que eu seria um quando crescesse...Úuurrú...o rato disfarçado de gato!!!
— Claro, imagina eu no trem da morte com esse visú? Quem mexe comigo? Tenho até divisa de tenente nesse ombro aqui ó. — E mostra os apliques dourados. ‘Apliques’ tanto no sentido metafórico, quanto ao pé-da-letra...
— E se descobrirem que você não é militar? — Perguntou Qüem-Qüem.
— Aí fudeu tudo! — Disse eu.
—...!
— Ou é por que um de vocês falou...
E fez-se um silêncio sólido, daqueles que quase dá pá pegar...
Foi a madrugada mais intrigante da minha vida de adolescente, daquelas que criam vínculos para vida toda.
—Seguinte, eu tô ‘mucho loco’, mas vou aproveitar o fio de consciência que eu ainda tenho prá mandar vocês dois dormir, que tá na hora de criança estar na cama, hahaha! — Ele se divertia com a nossa perplexidade.
E o monossilábico Roberto: — Vamoaí! — Disse isso com cara de adulto...Não sei por que, mas desde os dez anos que o Roberto tinha cara de adulto...
—A gente se vê amanhã lá na matinê do Véio Bigal. — Lembrou-nos do bom baile que havia na Industrial de 1978, sempre aos domingos à tarde.
— Então tá, a gente se vê lá...Falou! — disse me despedindo.
—Té mais! — Respondeu ele descendo, ainda cambaleando, a ladeira em direção à Ponte Preta.
E descemos o outro lado da ladeira para a Vila Industrial e prá cama, depois de uma bela noite regada a Tim Maia, Marvin Gaye e James Brown...
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SKUNK - parte 2


Eu já tava mesmo imaginando que esse negócio de ser amigo de traficante, não ia dar muito certo, mas como a gente sempre tem que quebrar a cara prá aprender alguma coisa, não era dessa vez que ia ser diferente. Ainda mais com doze anos. Quando você tem doze anos, todo mundo fica te dando um monte conselhos, mas a experiência dos outros nunca serve prá gente, não é mesmo?
Além do meu amigo Roberto, a turma era formada também pelos gêmeos Roberval e Vladimir. Os dois sempre tinham novidades da favela prá gente, como o baile Black citado... Com esse bando de aloprados aprendi a fumar, cabular aulas, arrumar namoradas (mas essa é outra história...), jogar flipperama, beber, fazer pindura na cantina da escola, brigar de turma...
Meu-Deus-do–céu! Como a gente brigava na escola nessa época, coisa de ganguismo mesmo, haviam diversas turmas que volta-e-meia se estapeavam uns aos outros pelos motivos mais fúteis. Pelo menos nessa época, ainda era na mão... É claro, todas essas coisas que moleques adoram e os pais odeiam.
Em 1978 apesar da recente liberação dos costumes promovidas nos anos 50 e 60, com muitas delas ainda em curso, a maioria dos pais não eram exemplo de liberalismo.
A não ser o meu pai. Esse era liberal até demais. Tinha sido rockabilly nos anos 50 e 60, andava de topete á brilhantina e pelo que me disse, dava grandes bailes movidos pelo mais puro, emergente e anárquico Rock’n’Roll.
Ele não me dava broncas. Só conversava, demais até. Quando eu aprontava alguma ele não batia, nunca. Mas falava, meu Deus! Como falava. Passava horas falando do que a gente fazia de errado, e dava milhares de alternativas prá gente fazer outra coisa e não a cagada que acabara de cometer, fosse ela qual fosse... Aliás, era melhor mesmo já dar logo uma surra e me largar prá lá, do que ficar falando, falando, falando...
E foi numa dessas, que o Vladimir apareceu na aula de Educação Física, ele não tinha nada que estar lá, ele era da quinta série e eu e o Roberto da sexta, aulas em horários diferentes, Além de que eu era o goleiro do time de futebol de salão e tava treinando.
Terminada a aula ele saiu da beira de quadra e veio na nossa direção avisar-nos que tinha uma novidade.
E é precisamente aí que opções de certo e o errado começam a se confundir..
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—Aí trouxe um barato aqui prá gente ver. — Disse Vladimir começando um suspense.
—O que que é ? — Perguntou o Roberto.
— Vamos esperar o meu irmão chegar, que eu quero que ele também veja — Retrucou esperando a cumplicidade.
— Ele tá onde? — Perguntei.
— Lá em casa, mas já vem. — Disse.
A saímos da quadra e fomos para a frente da escola esperar o Ruberval, conversando besteiras e amenidades.
Por serem gêmeos, eles eram extremamente unidos e unissintomáticos e nunca tomavam decisões separados e quando um ia fazer algo importante sempre esperava o outro...E essa solenidade toda começou a deixar o Roberto ansioso: — E aí ? O quê que tá pegando?
— Peraí que o Rube já chega.-- E chegou uns cinco minutos depois, perguntando:
— Já mostrou prá eles Mi?
— Não, tava te esperando. — E mostrou. Tirou do bolso um pequeno pacote de papel com uma quantidade pequena de maconha, o suficiente para um cigarro...
— Putz! Onde é que você arrumou isso? — Perguntei entre curioso e assustado, já que era a primeira vez que via a Maria Joana ao vivo e a cores: e como fedia aquele trem...
— Achei. Lá no campo da Ponte Preta... — Respondeu, mas ninguém acreditou, nem o irmão, mas na turma ninguém duvidava do que o outro falava. Era um código de moleque: nunca duvidar ou se desmentir na frente dos outros. Pegava mal prá turma toda.
— Então? Vamos ver como é que é? — Pergutou o Rube. Coisa que prá mim foi uma surpresa, já que ele sempre foi o mais equilibrado da trupe e também o mais quieto, mas vai saber lá...
— Enóisvaifumáessaporraonde? — Assim mesmo, tudo junto, que era como o Qüem-Qüem falava quando deixava de ser monosilábico. Você notou né´? “Nóis”. Ele já incluiu todo mundo, nem perguntou nada.
Aí eu disse: — E sei não, não sou muito chegado nesses baratos. — E já viu né, Qüem-Qüem? Lembra da conversa que a gente teve com o Luís o outro dia? Vai pegar mal esse lance. — Conclui.
— Pega nada, é só ninguém ficar sabendo. — Respondeu — A gente pode só experimentar prá ver como é isso.
E fomos. Decidimos que o melhor lugar era no campinho de futebol, ali mesmo em frente à escola. Nos embrenhamos no meio do capim alto que havia na lateral do campo. Ficamos analisando aquilo, eu cheirei e não gostei. O Qüem-Qüem disse que ia fumar a minha parte se eu não quisesse e que ia ficar ‘muito doido’.
¬ Peraí, alguém tem que ficar de boa, pra se alguém passar mal.—
¬ Fica você. – Disse o Vladimir – Que eu vou nessa também.
¬ Falou, eu fico então, se precisar eu chamo a ambulância.—
¬ Ah! Essa é boa. – Disse.
O Vladimir pegou um pedaço de papel fino que ele tirou do maço de cigarros: ¬ É que a seda tem que ser fina...— Grande filosofada essa do Mi, qualquer idiota sabe disso, inclusive a gente.
Enrolou e acendeu. Eu fiquei com a impressão de que não era a primeira vez que ele fazia aquilo, dada a destreza e rapidez com que ele enrolou o baseado, mas deixei prá lá. Eu tava era apavorado demais prá fazer qualquer consideração a mais, entretanto se algo desse errado, eu iria segurar a onda, até por que depois daquele baseado não ia ter muita gente ali em condições de mais nada.
¬ Dá dois aí – Disse o Vladimir passando pro irmão e esse passou pro Roberto que passou prá mim, eles fizeram todo um ritual de tragar e segurar a fumaça, mas eu só experimentei prá ver como era o gosto, tinha que ficar de olho nas coisas, não podia ir fundo dessa vez. Talvez na próxima... E foi nesse pique até que o baseado acabou, e eu fumei mais do que o combinado. Não notei muita diferença de humor, só fiquei mais sonolento...
Fomos de volta para o campo com aquela cara de gato com pena de passarinho no canto da boca, quando você faz coisa errada fica com a impressão de que todo mundo tá sabendo, ou que todo mundo desconfia de você. E depois de um certo tempo zanzando por ali, conversando com a molecada e alguns já meio tontos...
¬ Vamo nessa? Que eu tô com fome...– Disse o Roberto.
¬ Vamo aí. ¬ Respondi.
Nos despedimos dos gêmeos e fomos embora conversando besteiras de garotos a respeito da experiência. No meio do caminho prá casa, o Roberto começou a se queixar de dor na barriga.
¬ Deve ser fome.
¬ Não é fome não, eu sei quando é fome –
¬ Mas dói como ? – Perguntei.
¬ Sei lá, é um bolo na barriga e eu acho que vou vomitar...— Comecei a ficar preocupado, pois aquilo poderia ser uma reação da droga e eu não tava afim de chamar ambulância por que isso iria dar bode e dos grandes.
Antigamente a relação das pessoas com a maconha era bem mais radical, por ser proibida, as pessoas tinham verdadeira aversão a isso, coisa que já vem arrefecendo nos dias atuais, principalmente depois de recentes leis descriminalizando o uso pessoal desse tipo de ‘produto’. Quem viver verá. Eu sempre achei, desde aqueles tempos, que isso nunca foi mesmo um bicho-de-sete-cabeças, pois temos coisas muito piores liberadas e a proibição de cannabis no Brasil foi feita em função de influências de leis de outros países, principalmente os EUA, já que muito dos nossos governantes acham que tudo que é bom prá gringo é bom prá gente aqui...aí ficam imitando as leis de lá, onde ela foi proibida por causa de arruaças no sul do país , supostamente causadas por artistas negros ligados ao Blues e que fumavam mais que Maria-Fumaça velha...
¬ Vamo lá que eu te deixo na sua casa aí a gente vê o que faz ...—Disse-lhe.
¬ Mas não pode abrir o bico lá que senão já viu...
Aí eu tive uma ‘idéia sensacional’:
¬ Tô ligado, mas e gente pode fazer assim, quando perguntarem o que aconteceu a gente diz que você levou uma bolada na barriga durante o futebol na escola...
Esse tipo de ‘idéia’ é totalmente desnecessária, já que a gente poderia chegar lá e não dizer nada, provavelmente
a mãe dele faria um daqueles chazinhos-de-mãe ou daria um remédio qualquer e passado o efeito colateral da cannabis estaria tudo resolvido... mas não foi isso que aconteceu...
Quando chegamos lá, tentamos esconder isso da mãe dele, mas ele vomitou e ela quis saber o que ele tinha. Eu disse que não era nada, que ele ‘só’ tinha levado uma bolada na aula de educação física...(?)
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SKUNK - parte 3





Como é comum nessas ocasiões em que a mamãe coruja só se preocupa com a saúde da prole, Oh! Meu Deus: o anjinho que havia me ensinado várias porcarias, agora estava dodói, ihihihi! O riso caro leitor é despeito puro com a situação. Mas com certeza a diarréia que o meu amigo Qüem-Qüem julgava eminente, era muito mais preocupante, mas ela não veio. Quem veio foi o farmacêutico, chamado pela mãe. Eu fiquei por ali segurando onda do amigo. E foi juntando gente, êita povinho curioso, não podem ver um se lascando que vai todo mundo lá...
Meu amigo morava na esquina de uma rua muito movimentada da Vila industrial, a Estrada do Oratório. No quintal ainda morava a avó paterna e acho que umas tias ou primas,... sei lá. Mas aquele povo todo tava lá me apurrinhando. Como dava prá ver a movimentação da rua, cada hora chegava um e queria saber qual era história da bolada na barriga. E lá ia eu repetir tudo tim-tim por tim-tim...Imagina só...
E como toda mentira tem pernas curtas, nesse caso era paraplégica também, por causa da eminência da descoberta e das suas conseqüências e apesar toda minha criatividade, eu só tinha doze anos. Ainda me vem um farmacêutico metido a espertinho prá acabar de lascar tudo... Desses senhores que trabalham no mesmo bairro a muitos anos e em quem as mães confiavam mais do que nos médicos.
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¬ E então garoto?— Disse-me ele – Que História é essa de bolada?
E lá vou eu explicar tudo de novo...Que tédio... Tava começando a ficar chato.
¬ Olha aqui, esse menino pode ter um monte de coisa, mas uma eu tenho certeza que não foi: bolada na barriga. – Ele sentenciou assim mesmo, não me deixando muita folga prá criatividade.
¬ Foi bolada mesmo...
¬ Vamos fazer assim: se você disser o que foi que aconteceu, eu vou saber dar o remédio certo e seu amigo vai ficar bom logo, mas se continuar com esse papo de bola vai ficar mais difícil...Você gosta do seu amigo né?
E eu que tinha sido campeão de xadrez no Jocelyn por vários anos seguidos, acabava de entrar em um xeque, quase mate!... Pensei um pouco, mas a primeira conclusão a que cheguei foi pensar na saúde do amigo e que se foda a minha reputação, que por essas alturas da minha iniciante vida de roqueiro e encrenqueiro de plantão já não era lá essas coisas.
Geralmente a primeira conclusão a que se chega em uma questão não é mais correta, mas nesse caso eu não tinha muito o que escolher...
¬ O Senhor promete que não conta pros outros? Por que senão minha situação vai ficar complicada.—Perguntei quase sumindo dentro dos meus All Stars.
¬ Prometo.
¬ A gente fumou um baseado...e...
¬Ah, é isso só? Então tá, agora sei o que eu faço. – Respondeu quase conseguindo me convencer da sua aparente cumplicidade. Nesse dia eu descobri que as pessoas quando querem conseguir algo, prometem qualquer coisa que sabem que não vão cumprir e percebi também (lá no fundo da minha cabecinha de infante) que só eu pensava nas conseqüências antes de fazer as coisas, mais ninguém. Nem homens sérios, como os farmacêuticos.
Esse cidadão, que eu fiz questão de nunca mais entrar no estabelecimento dele e nem olhar em sua cara porca, espalhou prá mãe do garoto e prá todo mundo o que havia acontecido, ali mesmo na minha cara, claro que antes ele foi lá e aplicou uma injeção qualquer no Roberto, prá manter a sua reputação de ‘homem sério’.
E foi juntando gente...
Eu praticamente o conhecia desde que era criancinha, provavelmente foi ele quem tratou das minhas infantis crises de bronquite, das minhas dores-de-barriga e poderia ter tratado dessa de outro jeito. Por exemplo: aplicando o remédio certo, mas dizendo que era prá bolada na barriga...
Viraram-se todos prá mim e aparentemente contra. Quando ele passou por mim indo embora, depois de ter feito a ‘boa-ação-do-dia’, a minha vontade foi de criar asas e voar, grudar no pescoço dele e levá-lo para um passeio junto comigo pelo inferno, mas a lágrima no canto do meu olho, aquela porcaria daquela gotícula era pesada demais prá eu conseguir desgrudar do chão... Era pesada demais pra que eu continuasse de cabeça erguida prá olhar aquelas pessoas em volta de mim...
Depois que ele passou eu fiz um gesto que só piorou minha situação, mas do qual eu nunca me arrependi. Eu levantei o punho esquerdo na direção dele e ergui o dedo do meio, causando um rebuliço no meio da tradicional família pseudo-burguesa paulista.
Quando me virei só pra ver como o Roberto estava e ir embora o mais rápido possível dalí, dei de cara com a mãe dele: Ela tinha uma expressão que até hoje não consegui definir, mas a chamo de ‘mãe-em-fúria’. Isso meu caro leitor, é o exemplo da ferocidade animal, estudando um pouco biologia, a gente chega a conclusão que os animais mais ferozes da Terra, não são o leão, o tubarão branco ou as lendárias piranhas, o animal mais feroz da terra é a fêmea defendendo sua cria, qualquer fêmea.
¬ O que você fez com meu filho? – Perguntou-me bufando.
¬ Eu não fiz nada, a gente só fumou maconha...
¬ Ah! ‘Só’ fumou maconha? Eu sabia que isso dele andar com você não ia dar certo.
¬ A gente ‘só’ foi experimen...
¬ Que nada! Deixa de ser mentiroso! Voce já é viciado e fica dando essas porcarias pro meu filho!
¬ Eu nunca fumei isso. Foi a primeira vez...
¬ Foi nada, você nem tá passando mal, já deve ser viciado.
Imagina só, eu levando o Qüem-Qüem pro mal caminho!
Mas como eu fiquei de segurar onda, era o que eu iria fazer...
¬Você vai chamar a sua mãe aqui por que senão eu vou chamar a polícia...
Eu fui. Não havia mais o que fazer, foi até bom ter ido mesmo, precisava de um tempo para reordenar as idéias, mas ia ser difícil, o quê que eu iria dizer em casa? De preferência a verdade, por que de bode eu já tava até aqui ó! Minha mãe ia ter mais ou menos, a mesma reação da mãe do Roberto. O único que seria previsível era o meu pai. Mas tinha o pai do Roberto também, que era muito tranqüilo também. Enquanto eu fui em casa, a mãe do Roberto ligou para ele, que veio do trabalho ver como o filho estava.
E cada vez juntava mais gente...





Quando falei prá minha mãe do ocorrido e da solicitação da presença dela lá, ela ficou surpresa e a princípio, brava, muito brava, mas na conversa foi um pouco condescendente comigo, depois que garanti pra ela que aquilo foi só uma experiência mal-sucedida. Ela perguntou também dos gêmeos, mas eu não sabia onde eles estavam, provavelmente em casa.
Que diabos! O Roberto lá tinha que ter dor de barriga? Não bastava só ficar muito louco? Ainda bem que foi só dor de barriga, diriam os mais céticos. È isso mesmo! E você vai ver, vai chegar o dia em que as pessoas vão fazer da maconha um estilo de vida também e, eu acabei passando por isso de bobeira, por pura hipocrisia dos outros.





Voltando à casa do Roberto com minha mãe, apresentei-as e ficaram conversando depois se viraram prá mim e voltei a contar toda aquela história de novo. O que até aquele momento era novidade, agora começara a ficar repetitivo. Mas nessa bagunça toda ainda aconteceu algo de novo!
O Luisinho, nosso amigo e provavelmente o patrocinador oficial daquela da nossa empreitada cannabiana, passou pela frente da casa e viu o movimento, parou prá ver o que estava acontecendo. Eu quando vi sua Kombi branca parar na frente da casa, foi um alívio, a minha tábua de salvação apareceu:
¬ E aí Galinho, o quê que foi? Morreu alguém aí? – Perguntou assim que me viu.
¬ Eu quase morri aqui. Foi bom você aparecer.
¬ Quê que foi? Parece que você não tá bem...
Expliquei-lhe toda a situação e ele resolveu bancar o pai, e era mais ou menos o que ele sempre fazia. Principalmente quando algo estava indo muito errado...
¬ Eu pego quem deu esse baseado pro Vladimir...
¬ Ele disse que achou.
¬ Achou o caramba! Você acha que malandro fica perdendo isso por ai? E eu andei sabendo que tem um vacilão, lá na favela passando meu bagulho prá criança. Agora eu acho esse mané.
¬ Eu também pensei isso. – Disse com o meu desconfiômetro ligado.
¬ E o Qüem-Qüem, como tá?
¬ Agora já tá melhor, depois que o farmacêutico aplicou uma injeção.
¬ Esse idiota. Te fodeu hein! Mas esquenta a cabeça não garoto, vamo resolver isso.
¬ Tem como?
¬ Tem. Vamo buscar o Vladimir. Ele vai ter que explicar isso tudo. Pelo que eu tô vendo, tá todo mundo tirando seu couro. Sair daqui já vai resolver muitas coisas... e os gêmeos vão ter que vim aqui segurar a onda deles.
O Luis entrou, falou com nossos pais, me levou prá dentro da Kombi e fomos atrás dos dois. Na casa deles ele explicou a situação prá mãe deles, que teve a mesma reação da mãe do Roberto: os dois santinhos dela jamais fariam daquilo. O Luis explicou que aquilo não era de ser nada, só coisa de moleques, mas que eles teriam de ir lá explicar prá mãe do Roberto que foram eles que trouxeram a droga.
Muito a contra gosto eles vieram, mas na hora de falar a verdade pros pais do Roberto, se uniram os dois prá dizer que quem tinha trazido o capim-santo, tinha sido eu... E lá se vai uma amizade anos pro saco...
¬Você não mente Vladimir, tá complicando a situação do seu amigo. Mas tudo bem. Ó tio, o mentiroso aqui é esse tampinha aqui. – E apontou o Vladimir para o pai do Roberto—Se o Duílio não estivesse aqui a situação do Roberto poderia ser muito pior.
Passou a mão nos gêmeos e na mãe e os levou embora.
O Pai do Roberto que era o presidente vitalício da turma-do-deixa-disso, numa ação de lucidez disse prá minha mãe:
¬ Leva o menino prá casa e cuida dele. Meu filho já está bem e já-já fica melhor, não adianta ficar aqui dando bronca e expondo eles a essa situação. Depois nos falamos...—E fomos embora.
Em casa minha mãe fez algo que eu fiquei admirado: ela não era mãe de deixar problemas de filhos prá pai resolver, até por que, pai chega cansado do trampo e etc... Mas nesse dia ela disse:
¬ Você vai ver só quando seu pai chegar! – Eu achei estranho, ela nunca fazia isso. Mas foi um alívio, pelo menos apanhar, eu já vi que não iria.
Á noite eu fiz questão de estar dormindo quando meu pai chegou. Minha mãe contou prá ele e cobrou uma atitude. Ele tentou minimizar a situação, ¬ Isso é coisa de moleques ¬ mas não funcionou.
¬ Ou você dá um jeito nesse menino ou eu dou!
Ele veio pro meu lado na cama:
¬ Levanta. Eu sei que você não tá dormindo, vamos.
¬ Deixa eu dormir!
¬ Não deixo não, sua mãe tá preocupada. A gente precisa conversar, por que isso que você fez hoje ...
E começou a falar, falar e falar... Ficou horas, falando.
Vou poupar o leitor das considerações do meu pai, que era um homem muito inteligente e se eu for escrever o que ele disse, vou ter que escrever outro livro. Dá um tratado sobre drogas...
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No dia seguinte o Roberto não foi á escola. Nem foi nos dias seguintes: seus pais o tiraram da escola, onde todo mundo já estava sabendo do ocorrido. E todos ficaram sabendo por causa do Adolfo, um vizinho do Roberto, grande e gordo, que além de estudar no Jocelyn era um dos maiores fofoqueiros do bairro, e me fez o favor de contar prá todo mundo na escola. Os garotos passaram a tirar onda com a minha cara: “E aí, fumeiro, vamos estourar ‘um-do-bom’ no recreio?” — Foi a frase que ouvi do Luisão e do Cai-Cai, dois conhecidos arruaceiros da escola e inúmeras outras provocações do mesmo tipo.
A minha namorada daquele ano quase todo, a Maria Antônia, nem disse nada, só me devolveu algumas pequenas coisas (fotos, aliança e brinquedos) que eu lhe havia dado no decorrer do ano, e nunca mais olhou na minha cara.
Eu e o Vladimir nos atracamos no recreio do terceiro dia por provocações mútuas e por causa da bronca que ele levou do Luisinho, além, é claro, de ter que cagüetar quem deu o baseado prá ele, mais a surra que levou do pai. Fomos os dois parar na diretoria. A diretora, Dona Inês, que era muito amiga minha, deu suspensão de três dias para os dois. Não podia livrar minha cara dessa vez, como fez em tantas outras, tinha que manter a autoridade na frente do Vladimir e dos outros .
O Ruberval foi o seguinte, assim que voltei da suspensão, ele veio querer tirar satisfação das coisas que ficaram pendentes e tomar as dores das pancadas que dei na cara do irmão dele. Me grudei com ele também na entrada escola, trocamos várias, até que o Seu Nestor, caseiro da escola veio nos separar. O Rube aproveitou a ensejo e sumiu. Eu fui levado prá diretoria de novo, não era de fugir da raia, como você pode notar. A Inês não estava, fui suspenso outra vez.
No dia seguinte quando soube da treta, a Inês foi em casa, me botou dentro daquele maravilhoso Kharmann Guia TC verde, em que ela sempre me levava prá disputar os torneios de xadrez, onde eu representava a escola ou quando queria que eu escrevesse os cartazes e avisos das atividades escolares, se aproveitando da minha facilidade com o desenho.
Disse-me que a minha situação escolar estava por um fio e eu deveria voltar ás aulas, que a segunda expulsão havia sido um engano da secretária da escola, Dona Solange, que não poderia fazer isso duas vezes, já que eu estava sendo vítima das chacotas de todos.
Ela e o Luisinho foram os únicos que mantiveram a dignidade nessa história e ele passou a me pegar na esquina da minha rua com a Kombi e me levar para escola, além de dar homéricas broncas em todo mundo que se metesse no meu caminho, foi em reuniões de pais com se fosse o meu, pois eu não dizia em casa que tava com a minha vida escolar indo pro ralo. Depois me pegava na saída e me levava de volta. Me deu grandes lições de vida.
Isso tudo ocorreu quase no final do ano letivo e não deu tempo de fazer muita coisa. Durante o ano eu havia cabulado quase todas as aulas que haviam depois do recreio pra ir namorar a Maria, junto com o Roberto Qüem-Qüem que namorava a Sonia, irmã dela. E pro meu azar a maioria das aulas desses dias que eu gazeteava, eram de matemática...
No fim eu ainda tentei recuperar o que havia perdido, mas já era tarde demais, a professora de matemática Dona Nobuko, uma nissei magrela, antipática, me reprovou por faltas, apesar de algumas notas razoáveis.
O ano acabou de forma melancólica e triste e até o início do ano seguinte, quando me mudei da Vila Industrial, ainda vi o Roberto algumas vezes, bancando o DJ de um parquinho de diversões que se instalou ao lado da sua casa. A família dele não ficou ressentida comigo e ainda nos vimos muito, por anos seguintes, depois ele se mudou também e não o vi mais.

O Luis eu tive o prazer de rever uns cinco anos depois. Eu havia arrumado um emprego de letrista em uma empresa de publicidade na Vila Carrão, e o Luis tinha uma oficina de mecânica de carros em frente! Fiquei muito feliz, já que a sua situação de traficante não lhe caia muito bem e ele era um puta de um mecânico, sabia tudo de carro: elétrica, pintura e mecânica.
Revê-lo, sempre me pareceu uma dessas coincidências que só acontecem em novelas, mas que na vida real servem pra quitar determinados débitos que ela cria com os seres humanos. E tivemos a oportunidade de conviver e nos divertir muito, com grana no bolso, tocando violão, viajando, acampando, arrumando namoradas... sem drogas e sem gente inútil e hipócrita em volta.
É isso aí: a vida imita o vídeo...


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TÁ CEDO!!!