25 de mai de 2009

SKUNK - parte 1


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Imagina só: dois pirralhos, doze anos cada, juntos não davam um adulto. E tinha mais vento nas cabeças dos dois do que na Patagônia. Duas e pouco da madruga, passeando ali pelos confins de São Paulo (Vila Industrial, na divisa com Santo André), vindos de um baile lá na Favela da Ponte Preta no Parque Santa Madalena. Quem conhece a região sabe a bocada que é... Mas, lá se vão trinta anos.
Naquela época não era tão perigoso assim, contanto que os dois ditos vinham calmamente madrugada adentro e seus pais não tinham a menor preocupação de saber onde eles estavam. Era um tempo em que se mantinha a porta de casa aberta e todos se freqüentavam, havia segurança, mesmo nas quebradas. Você andava á noite na rua sem se preocupar com nada, era só dizer prá mãe que estava na casa do fulano. É trauma de velho isso, mas eu não vou perder o lugar comum: ‘Bons tempos aqueles...’
E você verá isso nestas linhas, pois os dois garotos acabam de avistar um amigo descendo a ladeira em frente à escola em que estudam, a Escola Estadual Jocelyn Pontes Gestal fica num topo e a rua cruza a colina entre a V. Industrial e o Pq. Santa Madalena.
Ele vem descendo cambaleante, ziguezagueando mesmo! Está todo vestido com roupas militares camufladas e uma mochila verde gigantesca nas costas.
Deve ter por volta de vinte e cinco anos e chama-se Luís. Tinha um apelido... Sei lá. Não lembro, coisa de velho. O tipo dele é assim, descendente ou Nordestino, médio, meio índio, meio negro, cabelos encaracolados pretos aparecendo debaixo da boina verde-oliva. Um tipo simpático. Conheciam ele dalí mesmo da porta da escola, que ele freqüentava, prá paquerar as meninas e ‘otras cositas más...’

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Os meninos o avistam e o chamam:
— E aí Luisinho? Pergunta Roberto. Luís levanta a cabeça e fixa o olhar tentando reconhecer quem é. E bingo! Alguém se preocupa com segurança dos cidadãos dessa cidade.
— Ô, e aí meninos? Isso é hora de vocês estarem na rua? — Por essas e outras você vê que mesmo quem era torto, cuidava de quem não era...
— A gente tá vindo dum baile lá na Ponte Preta... — Respondi eu.
— Ah! Então tá em casa, baile lá do Zumba, né?—Relembra Luís.
— Isso.— Confirma meu amigo Roberto Qüem-Qüem.
— Então tá. Ele me falou, mas eu viajei, por isso não fui lá no Zumba.
—Viajou prá onde? Férias? — Perguntei.
— Não garoto, negócios. No meu ramo não tem férias... Eu tô vindo da Bolívia
Nossa! A Bolívia na minha cabeça era um lugar qualquer numa floresta distante... Mas o espírito aventureiro e ‘empreendedor’ do Luís me fascinava.
— Bolívia? Como se chega lá? — Perguntou Roberto.
— Vixi! Mó treta, tem que pegar um trem aqui em São Paulo, depois outro em Bauru até o Mato Grosso e depois o Trem da Morte que vai prá Bolívia...
— Brabo esse seu trampo, heim? — Comento.
— Ah, você sabe, né véio? Nesse meu ‘trampo’ é melhor buscar a mercadoria direto no produtor, sai mais barato do que pegar de atravessador — Respondeu.
— Sim, o seu ‘trampo’... — Roberto inteligente como só ele, sacou logo. Aquelas trouxinhas que o Luís sempre passava pros outros na frente da escola...
—Isso garoto Qüem-Qüem! Você sempre ligado. — Se admirou Luís.
— Pelo que eu tô vendo, quem tá ‘ligado’ é você né Luisinho? — É o Qüem-Qüem bancando o espertinho...
—Meu irmão, eu tô ‘muito louco’— Confessa sem nenhum pudor. — Mas é o seguinte: eu não quero saber de vocês metidos nisso, vocês são dois garotos inteligentes e não tem nada a ver com esse meu mundo aqui ó.. —
— Qualé Luís? A gente não vai poder nem experimentar um back-side? — Desafiei. — Quero dizer: quando a gente for maior?
— Não! E tem mais, se eu pegar alguém passando do meu baseado prá vocês, tá fudido. — Contestou. — Vocês tem que estudar prá conseguir mais do que eu tô conseguindo com essa droga toda. E eu não vou ficar muito tempo nessa... Só vou juntar uma grana prá montar um negócio próprio e dar meu trampo. Por isso não inventa de vir na minha onda, eu não vou durar muito tempo nisso.
— Ouvindo você falar assim, dá até medo...¬
Ora, ora, o quê temos aqui caros amigos? Penso hoje com os meus botões. Um traficante com princípios idealistas de um futuro melhor! Pois é, naquela época até o traficante tinha princípios...
— Medo vocês deveriam ter de ficar aqui conversando comigo. Entre pó e mato, deve ter uns 20 quilos na minha mochila...Se os ‘homi’ pega nóis aqui...ó... — E bate com a palma da mão em cima da outra em forma de copo.
— Só — Monossilábico esse Roberto ás vezes.
— E você conseguiu entrar pro Exército com essa trambicagem toda, Luís? — Quis saber eu.
— Santa Ingenuidade Batman! — Brinca Luís
— Porque com essa roupa aí, a gente vai temer o quê? — Questiona Roberto.
— E quem disse que eu sou do Exército? Deixa explicar uma coisa, vocês já devem ter percebido que nós vivemos tempos brabos, estamos no meio de uma ditadura militar sem prazo prá acabar, e como eu ando nuns lugares muito suspeitos, o jeito mais seguro é andar disfarçado de milico... Quem vai mexer com militar?
— Puta merda! Bem sacado. — fiquei admirado com a inteligência do marginal. E decidi aquele dia que eu seria um quando crescesse...Úuurrú...o rato disfarçado de gato!!!
— Claro, imagina eu no trem da morte com esse visú? Quem mexe comigo? Tenho até divisa de tenente nesse ombro aqui ó. — E mostra os apliques dourados. ‘Apliques’ tanto no sentido metafórico, quanto ao pé-da-letra...
— E se descobrirem que você não é militar? — Perguntou Qüem-Qüem.
— Aí fudeu tudo! — Disse eu.
—...!
— Ou é por que um de vocês falou...
E fez-se um silêncio sólido, daqueles que quase dá pá pegar...
Foi a madrugada mais intrigante da minha vida de adolescente, daquelas que criam vínculos para vida toda.
—Seguinte, eu tô ‘mucho loco’, mas vou aproveitar o fio de consciência que eu ainda tenho prá mandar vocês dois dormir, que tá na hora de criança estar na cama, hahaha! — Ele se divertia com a nossa perplexidade.
E o monossilábico Roberto: — Vamoaí! — Disse isso com cara de adulto...Não sei por que, mas desde os dez anos que o Roberto tinha cara de adulto...
—A gente se vê amanhã lá na matinê do Véio Bigal. — Lembrou-nos do bom baile que havia na Industrial de 1978, sempre aos domingos à tarde.
— Então tá, a gente se vê lá...Falou! — disse me despedindo.
—Té mais! — Respondeu ele descendo, ainda cambaleando, a ladeira em direção à Ponte Preta.
E descemos o outro lado da ladeira para a Vila Industrial e prá cama, depois de uma bela noite regada a Tim Maia, Marvin Gaye e James Brown...
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TÁ CEDO!!!