25 de mai de 2009

RUA ALDO



Previlegiado esse garoto. Tem cinco anos, já lê e escreve como gente grande. Gosta de arte, música e desenha bem demais pra sua idade. Mora numa rua pacata da aprazível Vila Industrial dos anos 60, 70, por aí...
A rua Aldo é margeada em toda a sua extensão por um riacho de corredeira rápida, que é afluente do Córrego do Oratório. Ou rio Guaçú, como era chamado pelos índios que originalmente habitavam essa região, conhecida durante muito tempo como a Fazenda da Juta, ao sudeste da cidade de São Paulo.
O previlégio maior é ter o regato passando bem no fundo seu quintal.
As brincadeiras na água não têm hora. E caminha com amigos e primos toda a extensão do riacho, até a nascente (ou mina, como os meninos chamavam-na) nas ravinas na Estrada do Oratório. Ou até o seu deságüe no Guaçú, bem maior e de correnteza veloz. E lá se vão eles pela água clara, coletando e comendo pequenos morangos silvestres que crescem ás margens...Diversão pura.
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No entre-rios havia uma chácara de um português (Seu Manuel, óbvio), que plantava de tudo e fornecia verduras e legumes aos moradores da Vila. O garoto freqüenta a chácara, para comprar coisas para a mãe. O Seu Manuel é caprichoso: faz buquês de verduras e legumes, amarrados com tiras finas do sisal, que ponteia, literalmente, a plantação. Entretanto, a maioria das visitas à chácara, não são feitas pela porteira da frente...
Grupos de garotos ávidos por aventura se embrenham nas matas ás margens dos córregos e entram pelos fundos da propriedade. E saem de bolsos, e barrigas cheias. De quê? Ora caro leitor, de goiabas, bananas, laranjas, uvas, caquis e uma infinidade de delícias saqueadas do português...Que sempre saia bufando feito um zebu, de espingarda na mão...Diversão, pura e simples.
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Privilégio era ser o único da rua, aos doze anos, a levar um tiro de chumbinho na perna e ser respeitado pela garotada da rua.
Quando ouviu os gritos do portuga, correu, sentiu o impacto no joelho e rolou barranco abaixo até o Guaçú. Sentou na margem ouvindo a gritaria da molecada que se aproximava. Lavou o ferimento, juntou-se aos amigos, que não disseram uma palavra. Parece que havia um pacto não declarado entre eles, que o ajudaram a andar e o levaram embora.
Em casa disse a mãe que se esfolou jogando bola no campinho improvisado num terreno baldio da rua Alzira.
E o português nunca mais teve sossego.



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Como na maioria destes riachos da Bacia do Alto Tietê, várias lagoas se formam nas várzeas e ao longo de seu curso, as famílias pobres fazem balneário e piquenique. Formadas na sua grande maioria de imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e japoneses, essas famílias se espalham pelos campos e morros que ladeiam o córrego. As crianças se divertem com seus jogos e correrias, os pais vão ver no campo no topo do morro, mais uma sensacional vitória do IV Centenário da Vila Industrial. O troféu, é claro, ia pras prateleiras do Bar do Bié... Lembra né? Onde todas as dúvidas do jogo se acabavam em caipirinha e partidas de sinuca. Divertido mesmo.
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Num dia qualquer de outono o garoto acorda vai ao fundo do quintal, ver os 'seus' guarús, pequenos peixinhos coloridos que ele muito gosta de por em garrafas e bacias, para ver nascer filhotes, pra depois soltar tudo de novo dentro do riacho... Ver girino criando pernas. Essas coisas que guris acham de gostar.
Gosta também de como a paulista neblina daqueles tempos, flutua na superfície da água. No meio da névoa vê alguns pontos coloridos... Acha divertido, pois os pontos viram manchas e as manchas aumentam e têm um colorido furta-cor.
Ele chama uma prima mais velha pra ver. Ela fica horrorizada: diz que é óleo. Saem à rua andam um trecho e entram na rua A, em direção à mina. E descobrem acima dos barrancos da nascente que construíram uma garagem de ônibus na Estrada do Oratório. Acabou a diversão.
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A E.P.O. (Empresa Paulista de Ônibus) construiu a garagem e passou a despejar todo o resíduo dos motores e da lavagem dos ônibus, na penha da nascente...'Coisa de homens que não se lembram mais do sabor dos morangos silvestres', dizia sua prima com um ar de apocalipse pessoal.
E o garoto, que num futuro não remoto resistiria, sem uma lágrima, ao impacto do chumbo quente no joelho, chorou como criança que era... Sabia que aquela Vila Industrial (que de industrial só tinha o óleo no 'seu' rio), que era reduto de operários pacatos, se tornaria igual a qualquer outro bairro pobre da periferia...
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Trinta anos depois, superpopulosa, violenta e suja, a Vila não tem mais chácaras, os tiros são de 380, as margens dos dois rios viraram favelas e a água, vão ter que trocar de nome... Trinta anos depois, as longas tardes de outono da rua Aldo fazem falta ao garoto e nas noites de inverno seu joelho dói. É uma dor fina e tênue, não incomoda, nem deixou seqüelas, mas até agora ele não sabe onde foi parar a porra do chumbinho...

TÁ CEDO!!!