19 de ago de 2010

MEMÓRIAS DE UMA BARATA CINZA

       Uma barata caminha por cima de destroços. Destroços de algo que em algum tempo foi uma tábua de cortar carne...Lembra aquele churrasco em família, gente sorrindo, comendo e crianças fazendo aquela lambança de chocolate da cobertura do bolo... Em algum lugar da pequena falta de cérebro daquela barata, havia uma vaga lembrança de algo que parecia comestível...carne talvez.
       Carne não existe mais. Ao lado da barata há uma garrafa pet, daquelas que levam trocentos anos pra se desintegrar, mas até agora nada. A coca que havia dentro dela, há muito evaporou.
       Ah! A barata e a carne, fazia tempo que ela não comia nada, mas não sentia fome, só lembrava do cheiro, mas não havia mais carne, nenhuma. Aqueles tais de humanos que eram feitos de carne, há muito haviam acabado com tudo, se exterminando. 
      Eles começaram fazendo cercas e se apropriando do que era de todos, depois começaram a achar que algumas coisas dentro da cerca valia mais que as outras...A fruta que um plantava demorava mais crescer do que o legume do vizinho, aí esse humano queria mais legumes do que de costume, pra trocar por sua fruta.
       Depois, teve um idiota que descobriu um tipo de metal e como o metal era muito útil, mas muito raro, ele trocava o seu metal por um ano inteiro de frutas e verduras dos outros dois. Dois imbecis claro, se eles tivessem, lá no começo derrubado a primeira cerca e dado uns tapas na fuça do primeiro mesquinho, fazendo ele entender que aquilo era de todos e não só de quem põe a cerca, o mundo seria outro.
       Mas não foi o que fizeram, eles adoraram a ideia de ter um pedaço do planeta só pra eles e fizeram cercas também. Também acharam ótima a ideia de ter metais e quiseram acumular mais metais raros do que os outros...
      No começo isso foi interessante, achou a barata. Pois ela achava bons lugares pra viver junto desses humanos, que eram uns porcalhões e viviam deixando restos de frutas e legumes por aí, nos seus lixos, nos seus esgotos...
     Por seu instinto, ela não sabia se isso era memória dela mesma, ou de outras baratas mas, que diferença faz? O instinto é genético, não é mesmo?... Às baratas só interessa a sobrevivência, não interessa nem se são imunes á radiação, como disse um daqueles humanos metidos a besta. Mas agora ela percebe que talvez ele tinha razão: só sobrou ela!
      E de fruta em fruta, de legume em legume, eles chegaram na radiação. Por quê que foi mesmo? Ah!, ela lembra... Aqueles metais. Um dia um deles achou que tomar os metais e as frutas do outro era muito mais fácil do que plantar ou cavar. E foi o que fez.
         Os outros perceberam que se não tomassem nenhuma atitude, logo todos estariam tomando as coisas uns dos outros e escolheram um em que confiavam mais para deixar seus metais, e passaram a por a suas marcas em pequenos pedaços de metais e carregar consigo para pequenas trocas, outros mais espertos ficaram com a maior parte do metal guardada por outros humanos revestidos de metais e armados com pontas desses metais...
      Daí pra começarem a se matar por essas coisas foi um pulo. Até que chegaram na radiação. Mas a radiação não acabou com tudo, eles não poderiam acabar com os metais também, senão tudo iria pro buraco. E passaram então, a fazer todo mundo acreditar que aqueles metais deveriam ser a meta de todos. E todos acreditaram! Passaram a ter como objetivo só acumular essas coisas, os metais passaram a ter valor em papel, pra evitar que o fossem roubados por outros que não queriam trabalho, e esse nem tinha mais valor...trabalhar pra que? Se acumulando as coisas se vivia melhor?
        Depois de um tempo estavam todos brigando entre si pra ver quem acumulava mais coisas, inclusive aqueles que roubavam essas coisas dos outros. E as cercas passaram a ser feitas de metais e foram aumentando de tamanho. Mas isso não adiantou, pois onde haviam cercas os que roubavam passaram a sequestrar as pessoas pra passar nas cercas e roubar mais coisas...
       E os humanos foram indo assim, de cerca em cerca, de metal em metal, se matando e criando esse monte de destroços das coisas que acumulavam e que iam ficando velhas e quebradas. Montes e montes de entulhos e destroços foram cobrindo os campos, os rios, os mares e os humanos foram sumindo...
       Faz tempo que ela não vê um humano, antes ainda tinha restos deles pra comer, mas agora, nem restos...
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     Um amigo nosso conta que há uns vinte oito anos fez sua primeira casa. Era uma casa pequena feita no terreno da casa de sua mãe. Como é comum entre o povo mais pobre da população, faz-se uma casinha no terreno da casa dos pais, até que se consiga construir ou comprar a própria casa.
    Depois de alguns anos ele comprou a casa própria, um pequeno apartamento num conjunto habitacional na periferia de uma grande cidade. Passados esses anos todos, sua filha depois de um longo namoro, resolveu casar e eles resolveram que iriam morar naquela velha casinha no terreno da avó.
    Meu amigo voltou a ir lá nas suas horas de folga dar uma garibada na casa, que durante estes anos teve outros usos e precisava de uma reforma, tapar buracos, fazer pintura nova, reparar o teto, coisas que que a nova velha casa iria precisar pra receber os pombinhos...
    Depois de várias coisas, resolveu quebrar um ponto da parede, acho que pra por uma tomada nova. E achou uma barata cinza no buraco que fez no bloco!
   Provalvelmente quando ele construiu aquela parede, a barata já estava dentro do bloco e ao cimentá-lo, prendeu a barata... 
Rebocou a parede pintou, morou lá por mais de uma década, mudou-se...
E depois de vinte e oito anos ela estava  lá!! Tonta e hibernante, mas viva...
     

TÁ CEDO!!!